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O cristianismo e a pobreza
Há grande pobreza no mundo, o que o cristianismo tem a ver com isso? Deve haver alguma relação entre o cristianismo e a pobreza? Se há, qual a profundidade desta relação? Em que medida o cristianismo deve intervir na pobreza? Essas são algumas das perguntas que alguns cristãos se fazem e que nem sempre encontram uma resposta bíblica. Por isso, neste pequeno artigo, desejo trazer uma visão bíblica de como nós, pessoas cristãs e igreja, devemos nos relacionar com a pobreza material nesta terra.
Comecemos com o texto de Deuteronômio 15:7-11:
Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas cidades na tua terra que o SENHOR teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração nem fecharás as mãos a teu irmão pobre; antes lhe abrirás de todo a mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade. Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao SENHOR e haja em ti pecado. Livremente lhe darás, e não seja maligno o teu coração quando lho deres; pois, por isso, te abençoará o SENHOR, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes. Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra.
O povo de Israel estava prestes a adentrar na terra prometida. Antes de entrarem, Moisés fez uma grande apresentação da lei de Deus para o povo, conclamando todo o Israel à obediência. De modo que se obedecessem teriam a bênção e prosperidade de Deus, e se não obedecessem teriam o juízo de Deus. Este texto trata do relacionamento interno do povo de Deus, ou seja, eram leis nacionais. Logo, podemos ver claramente através desta lei o desejo que Deus tinha de que não houvesse pobreza em Israel. No versículo 4 do capítulo 15 diz “para que entre ti não haja pobre”, tratando a respeito do ano sabático, que acontecia a cada ciclo de sete anos. O Senhor desejava que todo o Israel fosse rico e próspero, para tanto enviou leis que atenuavam a pobreza de uns e minimizavam (não evitavam) o acúmulo excessivo de riqueza de outros. O texto está dizendo claramente “empreste recursos ao teu irmão pobre, mesmo que ele não possa te pagar”.
Empreste recursos ao teu irmão pobre, mesmo que ele não possa te pagar.
É importante lembrar que essas leis só eram necessárias pois o homem pecou e com isso o que era muito bom, a criação original e o próprio homem, tornaram-se miseráveis. O pecado, quando adentra ao mundo, corrompe todas as áreas da criação, trazendo assim miséria profunda à humanidade. As consequências da queda são cósmicas, não é possível para nós calcularmos o tremendo mal gerado pelo pecado. Desta forma, a pobreza é algo que o homem terá que lidar durante toda a sua história nesta terra, o versículo 11 diz “pois nunca deixará de haver pobres na terra”. Ou seja, a lei de Deus é boa e é o melhor que se pode viver, todavia, ainda assim haverá pobreza e miséria na terra. Esta lei não servia como uma resolução completa do pecado, mas sim como uma tipificação do Messias que viria e que seria capaz de erradicar completamente a pobreza material e espiritual do mundo na consumação do seu plano de redenção.
Nenhuma pobreza é boa, toda miséria é ruim.
O que isso tem a ver comigo hoje?
O povo de Israel do antigo testamento representava a igreja do novo testamento, e por analogia, pode-se concluir, a partir do texto acima, que Deus espera que na igreja cristã não haja pobreza. A lei do antigo testamento era um elemento da aliança da graça, que tinha por seu objetivo mais elevado apontar para o Cristo que viria e traria a única solução completa para o pecado de Adão (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 7). Cristo veio e morreu na cruz, pagou o preço do pecado dos seus eleitos e tornou-se o segundo Adão, o homem perfeito, em quem há perdão e salvação (1Co 15:45-47). Por isso, podemos olhar para a lei descrita em Deuteronômio através de Cristo, e aplicar os princípios deste texto em nossos dias. Ou seja, chegou Aquele que é maior que a lei, que pode trazer a solução definitiva para a pobreza. Isso não anula a lei, mas a ratifica, a fim de que a igreja a pratique com mais afinco e piedade. Logo, se o princípio do texto é: “ajam com generosidade, mitigando a pobreza, cada um segundo as suas próprias posses”, eis aí o que devemos fazer: sermos generosos (1Tm 6:18), benignos (Ef 4:32), não gananciosos (1Pe 5:2), não apegados à riqueza (1Tm 6:10).
“Ajam com generosidade, mitigando a pobreza, cada um segundo as suas próprias posses.”
Pode-se ver isso em vários textos do novo testamento, como no capítulo 11 de Atos em que o profeta Ágabo dava a entender pelo Espírito que viria grande fome sobre o mundo, o que veio a acontecer nos dias de Cláudio. Neste momento Paulo e Barnabé foram enviados à Judeia para levar socorros aos irmãos que lá moravam. Em Gálatas 2:10 Paulo diz “recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer”. No capítulo 8 da segunda carta aos Coríntios, Paulo cita o bom testemunho dos crentes da Macedônia que fizeram uma coleta para os irmãos pobres de Jerusalém. Fica mais que evidente o compromisso que cada cristão deve ter com seu irmão mais pobre, provendo-lhe o necessário, sem que “haja pensamento vil em seu coração”.
E com a pobreza para além da igreja, como devemos lidar?
Comecemos por Provérbios 31:8-9:
Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados.
O livro de Provérbios é um compêndio de princípios de sabedoria, que ordenam a forma de viver e apresentam um justo caminhar. Não se pode interpretar este texto da mesma forma que a lei de Deuteronômio. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser palavra inspirada de Deus e verdade eterna para a igreja. Estes dois versículos estão inseridos no contexto imediato das palavras ao rei Lemuel. A ideia básica da perícope de Provérbios 31.1-9 é “como ser um rei virtuoso”. É muito relevante, e propício para nosso tema, que algumas das características de um rei virtuoso sejam “cuidar do direito do desamparado e fazer justiça aos pobres e necessitados”. Se a Bíblia espera que um rei faça isso, será que esse princípio não se aplica também ao cristão comum? Façamos a prova real em Lucas 3.11:
“Respondeu-lhes: quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem, e quem tiver comida, faça o mesmo.”
João Batista pregava acerca do batismo de arrependimento, e quando questionado a respeito do que deveriam fazer, ou seja, quais as evidências de alguém que se arrependeu, João apresenta a virtude da generosidade, da partilha, da doação piedosa. Esse é um princípio fundamental para este tema: “todo cristão deve ser virtuosamente generoso, um piedoso doador daquilo que tem”.
“Todo cristão deve ser virtuosamente generoso, um piedoso doador daquilo que tem.”
Concluo que a ação de mitigação da pobreza no mundo para pessoas que não estão na igreja também é uma prática legítima. Devemos olhar ao nosso redor e sermos cuidadosos com aqueles que verdadeiramente precisam de ajuda, com os mais necessitados, oferecendo recursos básicos para a fome e para o frio, mas também oportunidades de uma mudança radical da sua realidade. Toda boa doação é feita com sabedoria e prudência, visando mais a satisfação da alma do que o alívio do corpo. Porém não podemos incorrer no erro da solução completa da pobreza e da miséria, isso não acontecerá aqui; somente Cristo, na consumação da sua redenção, trará à sua igreja satisfação completa e perfeita no reino vindouro.
Toda boa doação é feita com sabedoria e prudência, visando mais a satisfação da alma do que o alívio do corpo.
Deve haver alguma relação entre o cristianismo e a pobreza?
Sim, devemos lutar para que não haja pobreza alguma na família da fé, e sermos generosos doadores com qualquer próximo que estiver necessitado, tendo como crivo a sabedoria e a prudência.
Se há, qual a profundidade desta relação?
Quanto à família na fé, o quão profundamente necessário for. Quanto aos necessitados desta terra, oferecendo auxílio no frio, comida na fome e possibilitando verdadeiros caminhos de mudança.
Em que medida o cristianismo deve intervir na pobreza?
Na medida da obediência a Cristo, sabendo que não podemos resolver completamente a pobreza nesta terra.
